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01/07/2018 00:00:00 Pânico: existe oportunidade no medo?

Autor: Suzymara Trintinaglia¹

 

Segundo a Psiquiatria, o Pânico pertence à categoria dos Transtornos de Ansiedade. Pesquisadores e especialistas acreditam que o Transtorno de Pânico é uma combinação dos aspectos biológicos, psicológicos e individuais, mas o que intensifica os sintomas é a falta de conhecimento sobre esta patologia.

É esperado que o leigo interprete de forma confusa o Transtorno de Pânico e confunda seus sintomas, haja vista, as semelhanças entre outras formas de apresentação da ansiedade e angústia. Um ataque de pânico pode ser facilmente confundido com fobia. Porém, nesta encontraremos uma característica oposta ao Pânico, principalmente pelo fato que nas fobias existe um motivo real e externo, algo que funciona como um ativador situacional como falar em público ou situações limite como: ataque terrorista, acidente, incêndio, pane no avião, ficar preso no elevador.

O ataque de pânico tem características marcantes e inesquecíveis como a imprevisibilidade do ataque, a ausência de ativador situacional ou seja, “surge do nada”. O ataque é experimentado sem desencadeante real, mas é sentido como se fosse um perigo real iminente. Ainda que o agente externo não esteja presente pois o perigo vem do intrapsíquico, de suas fantasias, do seu subjetivo inscrito e registrado no passado infantil, haverá ataques recorrentes de ansiedade aguda acompanhada da fantasia iminente de morte.

Um ataque de pânico é a manifestação nuclear da angústia repentina e inexplicável acompanhada de grande estímulo do sistema nervoso autônomo responsável pela “reação de alarme” frente a uma situação de perigo (neste caso, equivocadamente interpretada pelo psíquico) desencadeando assim, um conjunto de sintomas físicos e psíquicos tais como, palpitações, sudorese, falta de ar, tremores, desrealização, medo de perder o controle ou o já mencionado, o temor frente a morte.

Os alarmes falsos, a resposta imediata da ansiedade a eles e o temor à repetição de outro ataque constitui a tônica do Transtorno de Pânico. Pacientes que já vivenciaram profundamente o Pânico, relatam que é como se o sujeito assistisse a própria morte em vida. Apenas que o suposto “alívio da morte” nunca chega, porque é uma morte-que-nunca-morre (TRINCA, 1997, pg 85), o que potencializa ainda mais o desespero.

Segundo relato de pacientes, depois da primeira crise, o maior medo é que ela retorne e que se dê numa situação que possa causar um grande constrangimento e, pior que isso, que seja num lugar que não possa ser socorrida, ajudada, cuidada, amparada. Isso faz com que o sujeito tenha um comportamento evitativo e só saia de casa se o lugar oferecer garantias, tais como hospital ou farmácia nas redondezas. O que significa que para não ocorrer uma outra crise é desencadeado um procedimento defensivo que acaba produzindo um quadro fóbico onde gradativamente o circuito desta pessoa vai se restringindo até não conseguir sair de casa ou, na melhor das hipóteses, somente acompanhada por alguém.

Como este medo é de algo completamente desconhecido e ilógico, o sujeito não tem controle sobre as crises, assim o quadro fica cada vez mais dramático porque o sentimento de impotência frente a algo o domina e traduz-se numa incapacidade de dirigir a própria vida. Medo e ansiedade são emoções primárias que quando patológicas se tornam transtornos emocionais, o que nos faz pensar que medo excessivo gera pânico, e pânico é um sistema defensivo para o medo.

A angústia é uma experiência universal caracterizada por uma antecipação temerosa de um acontecimento futuro desagradável. A dor impulsiona o ego para estratégias defensivas com o intuito de As pessoas que não conseguem subjetivar esta condição de desamparo, entram em pânico, assim sendo, o pânico não representa apenas a descarga de uma angústia.  O pânico é um afeto num sujeito que nunca pôde fazer a propensão desta dimensão do desamparo de modo a conviver com ela de uma maneira que quando ele se confronta com esta situação ele se desespera. (PEREIRA,1999)

O pânico circunscreve aquela sensação de abandono insuportável da falta do outro que não foi subjetivamente absorvida. Nesse estado o indivíduo regride a ponto de sentir-se uma criança frágil que precisa de cuidados intensos e diários. Alguns pacientes relatam que é impossível dormir só, geralmente buscam a cama da mãe, o trazem a mãe para a sua cama. Também é comum que quem sofre de Pânico insista para que um outro fique e durma perto. Sentem-se protegidos em caso de algo acontecer subitamente. É aquela garantia, de que não se está desamparado. É inegável que esta garantia é uma ilusão, mas se faz absolutamente necessária neste momento.

O pânico também reflete a situação de vida profundamente desequilibrada que vivemos hoje na nossa sociedade. A alta competitividade, as profundas injustiças sociais, a falta de segurança, a crise na área da saúde estabelecem uma relação estreita com o sentimento de abandono, de falta de proteção, sustentação e de desamparo. As inúmeras separações entre os casais, o novo papel que a mulher está desempenhando e as mudanças familiares acarretam em alterações nas funções e lugares que as pessoas ocupam, confirmando a falta de “garantias”.

A estrutura psíquica do sujeito do pânico quando desenvolvida, indubitavelmente sofreu falhas e seus recursos psíquicos neste momento não estão dando conta do que está sendo exigido. Na melhor das hipóteses está construindo uma espécie de duto de escoamento para altos níveis de angústia desligada  superior ao suportado pelo psiquismo.             

É compreensível que neste contexto em que sociedade está inserida ou seja, na cultura do ter, do narcisismo patológico, da condição do espetáculo ( BIRMAN 1999) se pense em alguns possíveis destinos de escoamento destas angústias geradas pela expectativa demasiada do ser-humano. São eles, as depressões, os transtornos psicossomáticos e alimentares, com ênfase na obesidade e na anorexia, as toxicomanias, o aumento da taxa de tentativas de suicídios, as compulsões e certamente os transtornos dos afetos de ansiedade. O Pânico ao que parece, pois serão necessários ainda muitas pesquisas para autorizar uma previsão, encabeçará a lista destas patologias. Talvez o ponto central, esteja na forma que se apresenta, sorrateiro, invasivo, inominável e devastador.

Enquanto a grande ignorância no que tange a dualidade psiquismo e corpo vigorar, enquanto não admitirmos  uma comunicação intensa e constante entre estas duas instâncias, relegando sempre para segundo plano o emocional, transtornos de toda ordem serão constantes. Em Pânico, o sujeito  não enxerga um eu capaz de solidão, se vê absolutamente desamparado, provavelmente remetido a experiências passadas marcadas pelo abandono (não somente por isto). Entenda-se abandono, falta de, não necessariamente falta da presença de. O desamparo é algo da ordem do abandono e do insuportável da ausência do outro que nunca pôde ser subjetivamente assimilada.

Quem sofre de pânico sente-se prisioneiro do subjetivo e fica capturado pelo sofrimento constante da fantasia de não ter sido importante para alguém a ponto deste outro se oferecer como fiador. Para não mergulhar num estado totalmente impensado (WINNICOTT) o pânico se revela e se apropria do corpo, porque pelo menos tem algo concreto se passando dentro de tanta angústia insólita, sem qualquer sentido. É pela descarga corporal que o pânico comunica que algo está acontecendo. A crise, é a manifestação de alguma coisa que não está funcionando como deveria.

As consequências do pânico se não houver tratamento adequado, podem ser tão devastadoras quanto ele próprio. Já sabido, o paciente vai desenvolver um quadro fóbico,  pois passa a temer um novo ataque no mesmo lugar que o anterior, abrindo mão de oportunidades profissionais, de divertimento e escolhas afetivas.

O pânico é desesperador, mas é, também, uma forma de entrar em contato com a verdade da própria-morte. Também está sinalizando aos homens, o estilo de vida contemporâneo marcado pela insuficiência de recursos internos, pelo empobrecimento intrapsíquico e por frágeis e violáveis laços afetivos que se estabelece consequentemente.

Entrar em pânico e compreender seu significado é um recurso para se aprender a conviver com a ideia de que nossos protetores, nossa garantia, está apenas no plano da representação do psiquismo. Olhando o Pânico desta perspectiva, ele poderia ser interpretado como uma sensação de perigo registrada no passado, que eclode no presente e que pode ser experimentada como uma oportunidade de crescimento, permitindo assim que em um futuro breve o sujeito administre mais adequadamente às urgências inerentes a vida e encontre saídas mais saudáveis do que o sintoma. Desta forma, o Pânico não fica reduzido somente aos seus aspectos negativos e de sofrimento.

Paciente A. (34 anos):  se quer bem saber o Pânico mudou minha vida para melhor. Tive a oportunidade de aprender muita coisa com ele. Sem frescuras, se eu voltar no tempo, se não fosse o Pânico eu não saberia até hoje quem eu sou e isso está longe de ser tarefa fácil hein!!? Aproveite se tens Pânico e trate o resto, quem sabe não descobre que no final, se contares o resto.....o Pânico pode ser o menor sintoma?.

 

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¹ Texto e excerto retirado da obra : Transtorno do Pânico: prisioneiros do sofrimento subjetivo. Trintinaglia, Suzymara, EDUCS, 2009.  www.suzytrintinaglia.com.br